Canadá lamenta quando restos de crianças são encontrados em uma escola indígena

Poucas coisas podem ser tão devastadoras quanto a morte de uma criança.  Uma vala comum contendo os restos mortais de 215 crianças foi encontrada na escola residencial Kamloops.  A escola foi criada para integrar os indígenas e foi fechada em 1978. Rosanne Casimir, chefe da Tk’emlups te Secwepemc na cidade de Kamloops, disse que a descoberta preliminar representava uma perda impensável que os administradores da escola nunca documentaram.  “Embora saibamos que muitas crianças nunca voltaram para casa e suas famílias ficaram sem respostas, esta confirmação traz um peso especial para nossos corações e nosso espírito durante todo o Secwepemc Ecw.”

De acordo com o especialista em patrimônio Lucas Roque, escolas residenciais existiram no Canadá desde o século 17 até o final dos anos 1990.  Estima-se que pelo menos 150.000 crianças das Primeiras Nações frequentaram essas escolas durante este período.  As crianças foram retiradas à força de suas casas e na escola, muitas vezes, foram sujeitas a abusos físicos, emocionais e sexuais, negligência e supressão deliberada de suas culturas e línguas.  As escolas faziam parte de uma política colonial para destruir a rica cultura e identidade dos povos indígenas.  Essas escolas tentaram converter as crianças ao cristianismo e relegaram os indígenas como párias na sociedade.

É difícil não ser afetado por esse genocídio cultural.  Como afirma Roque, “este é um exemplo de abuso de poder pelo sistema colonial.  É uma bandeira vermelha que nos mostra que não podemos aceitar esse tipo de situação hoje porque ainda temos racismo e intolerância contra os indígenas e também contra os imigrantes no Canadá.  O sistema é injusto com os indígenas causando a morte de tantos deles.  Não podemos tolerar isso. ”  As acomodações para dormir das crianças estavam lotadas.  Durante uma epidemia, era impossível isolar os pacientes e contatos adequadamente.

Muitas crianças não receberam cuidados médicos adequados, algumas chegando a morrer prematuramente de doenças como a tuberculose.  Mais de 4000 crianças morreram ao longo de várias décadas.

Cada um de nós pode fazer algo para mitigar a vergonha, a dor e a angústia causadas por essa descoberta.  Roque acrescentou: “É fundamental reconhecer a importância desta descoberta.  Deve ser considerado um ponto pesaroso na história do Canadá.  Os povos indígenas devem ser reconhecidos como os verdadeiros proprietários desta terra.  As pessoas deveriam se esforçar para conhecer melhor sua História.  O Patrimônio Indígena não é uma relíquia do passado.  Ele está vivo e é preciso ter consciência para construir um país saudável e rico.  O racismo não deve ser tolerado contra indígenas ou qualquer outro grupo minoritário. ”

Mortes violentas de defensores da terra e dos direitos humanos indígenas em países latino-americanos não são incomuns.  Por exemplo, tem havido uma tremenda onda de violência sistemática contra os povos indígenas na Colômbia, especialmente contra o povo Nasa em Cauca, com o Conselho Indígena Regional de Cauca chamando isso de genocídio.

As populações indígenas constituem maiorias empobrecidas em alguns países da América do Sul e minorias marginalizadas em outros.  Em 2019, 11 ativistas e líderes indígenas do Brasil viajaram pela Europa exigindo ações contra a ameaça às suas vidas, terras e florestas sob o governo Bolsonaro.  Em muitos países, como na Guatemala, os indígenas são deslocados à força para dar lugar a programas agrícolas, de mineração e hidrelétricos.  A busca por justiça para as vítimas continua.

O verdadeiro número de mortes pode nunca ser conhecido devido a mortes não contabilizadas e arquivos destruídos.  A Tk’emlups te Secwepemc First Nation em Kamloops está trabalhando com um radar especializado para completar o levantamento do terreno da escola.  Espera-se um relatório completo em meados de junho.

A consciência, esperançosamente, encorajará a mudança.

Texto original: Bartika Dutta.

Tradução em português: Márjudi Estrela. 

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